A peça teatral A gaivota de Tchékhov e o trabalho precioso que Stanislavski a empreendeu.
Várias personagens de A Gaivota podemos dizer que são ridículas, vemos umas personagens altivas e ao mesmo tempo utópicas nas suas idéias e a mesquinharia, banalização dos seus atos. É certo que a personagem central desta peça chama-se Trepleov: um sonhador da comédia, um escritor romântico cheio de mudanças de humor e que sempre está em permanente conflito interior, humilhado cada vez mais com o confronto das suas ideais utópicas e as suas vestes simples e vulgarizada que usa, como que entendido por Tchecov, para estranheza daqueles que o olhavam e via nele um personagem de Trepleov um herói. E Quando ele toma a decisão de tirar a própria vida, ouve-se um estampido vindo das imediações do jardim. Onde todos se encontravam menos ele que não estava na casa, pôde ouvir meio que um estouro e instintivamente tiveram a impressão do que se passava. É então que DORN diz: "aquilo foi um frasco de éter que rebentou", uma passagem que tirou alguns dos encenadores do plano terrestre e os elevou ao suspense nas esterlas.
A peça a Gaivota foi escrita, simples e puramente impondo aquilo que Tchekhov acreditava ser mais uma peças das inúmeras que ele escrevia meio que ignorando e não levando em consideração os Princípios que pregava a ordem teatral da sua atualidade, a qual privilegiava o drama e a tragédia e Tchekhov a concebia como comédia, mas deixando ser influenciado exatamente por fatos ocorridos na sua vida cotidiana e vindos de seu espírito e da alma. “Levitan disparou e uma ave, ferida na asa, caiu num charco. Eu a levantei. Tinha um bico comprido, olhos grandes e pretos e uma plumagem bonita. Olhava para nós, espantada. O que podíamos fazer? Levitan franziu a testa, fechou os olhos e me suplicou, com voz trêmula:” por favor, esmague a cabeça dela com a coronha do rifle. Respondi que não podia. Ele não parava de sacudir os ombros, nervoso, contraia o rosto e suplicava. A galinhola olhava para mim espantada. Tive de obedecer a Levitan e matá-la. E, enquanto dois imbecis voltavam para casa e sentavam-se para jantar, havia uma criatura fascinante a menos no mundo” (Rubens Figueiredo)
Tchecov chamou-lhe: "Uma comédia, três papéis de mulher, seis para homens, quatro atos, uma paisagem (vista para um lago), muitas conversas sobre a literatura, um pouco de ação, um toque de amor".
Standislavski soube exatamente fazer de tudo isso uma verdadeira transformação, quando que sem fazer nenhum reparo na peça e aproveitando toda a sua liberdade de interpretação que a mesma oferecia, embora sendo oferecido uma certa resistência por parte do autor Tchékhov, pode fazer desta peça teatral que começou a ser encenada um fracasso, em um verdadeiro sucesso. “TREPLIOV Cada vez mais me convenço de que a questão não consiste em formas velhas, mas sim em que a pessoa escreva sem pensar em formas, sejam quais forem, que ela escreva porque isso flui livremente da sua alma.”
Outra das principais causas que alcançou o sucesso esplendoroso foi o imenso apelo que Stanislavski empreendeu a peça, principalmente apelando aos atores que iam participar da interpretação da peça que usassem e abusassem tanto da intuição quanto dos mais variados sentimentos possíveis, que tudo o que foi feito viesse exatamente da Alma e do espírito, ou seja, do interior e que tudo isso contracenasse com o que se ponha ao seu redor e como as maravilhas da natureza, sendo exatamente isso que se expõe na idéia principal do autor da peça, . “Não vou descrever os espetáculos das peças de Tchékhov, pois isto seria impossível. Do se encanto consiste em que não se traduz por palavras, mas está oculto sobre elas ou nas pausas, ou nas concepções dos atores, na irradiação do seu sentimento interior. Aí ganham vida em cena até os objetos mortos, os sons, as decorações, as imagens criadas pelos artistas, e o próprio clima da peça e de todo o espetáculo. Isso aqui reside na intuição criadora e no sentimento artístico.” (Standislavski).
Também podemos ver que Stanislavski meio que misturou e aproveitou essa condição da liberdade que a peça se traduzia em seus pensamentos e sentidos, o uso dos gêneros da comédia, drama e a tragédia e essa mistura desses gêneros propiciou um sucesso que até mesmo o próprio Stanislavski não esperava, talvez não em tamanha proporção.
Enfim, Stanislavski soube fazer da criatura de um grande criador como Tchekhov uma verdadeira obra prima teatral, ressaltando toda a beleza interior e a liberdade que disponha o mesmo naquele momento e que a peça tinha tendência a oferecer, aproveitando que o mesmo era dotado de criatividade, visionário, destemido, corajoso e acima de tudo considerado, o pai da interiorização que o ator teatral tem e deve está imbuído. “Para interpretar Tchékhov, é preciso antes de tudo escavar até atingir o seu veio aurífero, entregar-se ao poder do sentido de verdade que aos encantos do seu charme, crer em tudo e então, juntos com ele, seguirmos para a linha espiritual das obras em direção às portas secretas da própria supra consciência artística. Ali nas misteriosas oficinas da alma, cria-se o clima tckekhoviano”. (Stanislavski).

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